OS CLAUSTROS E A CLAUSTROFOBIA
Sempre gostei de visitar lugares relacionados com a religião. Adoro a áurea mística que quase todos eles têm. O cheiro a pedra, misturado com o fumo da cera das velas que vão ardendo lentamente.
Em especial, sempre gostei muito da parte dos claustros. Imagino-me um frade enclausurado durante horas e horas, dias e dias, e poder desfrutar do prazer de ver a luz do sol a partir do pátio. Sentir-me rodeado de todos os arcos. Tocar a sombra das colunas projectada sobre as lajes de pedra com o hábito vestido. Um momento de liberdade.
Têm sorte, os nossos senadores. Tirando proveito das obras de restauro feitas pelo agora inimigo Madeira de Pinheiro, podem, quando se sentem enfadados pelos aborrecidos assuntos da autarquia, respirar o ar puro que se sente nos claustros do município.
Tirando proveito das prerrogativas da minha recente nomeação como um dos 367 secretários, prometida e conseguida em plena campanha eleitoral, tenho acesso ao espaço dos claustros. Fazendo uso deste meu privilégio, posso vislumbrar os senadores aos berros aos telemóveis, atendendo chamadas sem conta. Ouço o papel dos muitos cigarros que fumam a encarquilhar, portas a bater. Vejo-os esbracejar violentamente com o ar, como que lutando com dezenas de moinhos de vento. E muitas outras coisas que não posso revelar, estas passadas mais tarde e no interior das salas de reunião.
Há dois dias, ou seja, logo após as eleições, vi algo que me preocupou. Uma ambulância estacionada por detrás dos claustros, um homem pequeno de bigode farfalhudo a arfar, de tantas ordens que dava à equipa formada por um bombeiro e a sua sombra. Subi, preocupado com tanto aparato.
No meio do pátio, jazia, inerte, o imperador da freguesia cuja justiça era por demais conhecida. O ambiente era de clara preocupação. Receava-se pelo seu estado de saúde. Via-se, por debaixo da camisa sem gravata que usava, o coração a palpitar. As gotas de suor agrupavam-se em pequenos grupos e escorriam em direcção à laringe. O bombeiro apressava-se a colocar a maca ao seu lado, pedindo ajuda para o transladar .
A contrastar com tamanha agitação, um senador mais afastado. Não era um sorriso, mas antes um verdadeiro riso de hiena que mantinha por debaixo dos pêlos que sobressaíam na sua face. Não percebi se por gozo ou preocupação.
Entretanto, um médico da CM das Termas, a que também chamam não-sei-das-quantas-tur, abeirou-se do infeliz senador. Rápido que nem um raio, claro que nem um blogue violado por hackers, o prognóstico veio antes. Como o do João Pinto, antes do jogo.
Apesar de estar num claustro, vaticinou com eloquência: «o senador padece de claustrofobia, ou seja, de um estado psicopatológico caracterizado pelo medo de passar por ou estar em lugares fechados». Estranho prognóstico, gracejou o senador-mor, adiantando que isso devia ter sido do melão comido no Parque do Pisão. «Esse gajo tem a mania da serra e das cascas de melão, pensa que é do povo, depois admira-se, ainda se comesse um porco no espeto».
O médico apressou-se a explicar que não era um medo de estar num lugar fechado sem mais. Era antes o medo de estar num beco sem saída, uma espécie de claustrofobia política. Resumindo, o senador doente apenas poderia recuperar quando e se o senador mor lhe desse o lugar.
Nunca vi nenhum, mas é assim que imagino o diabo a fugir de uma cruz. Tomado de uma força sobre-humana, o senador-mor, ao ouvir falar da sua substituição deu um salto para trás, actividade em que é perito quando as coisas se complicam, trepou por uma coluna acima e dirigiu-se ao sino do convento. Com as duas mãos, agarrou-se ao badalo e abanou-o sem parar, clamando por ajuda, ao mesmo que tempo que gritava: «querem-me tornar o Gralheiro do século XXI».
Ouvindo tal devaneio, o senador desfalecido recuperou os sentidos e, pensando que o mor estava tomado de um estado de loucura irreversível, aproveitou a oportunidade, mandou-o internar e tomou o seu lugar como número um.
Não sei o que vai acontecer, mas há já quem fale que a sede do concelho vai mudar para a freguesia da justiça.
Robin dos Telheiros, o homem que os tem inteiros.
Sempre gostei de visitar lugares relacionados com a religião. Adoro a áurea mística que quase todos eles têm. O cheiro a pedra, misturado com o fumo da cera das velas que vão ardendo lentamente.
Em especial, sempre gostei muito da parte dos claustros. Imagino-me um frade enclausurado durante horas e horas, dias e dias, e poder desfrutar do prazer de ver a luz do sol a partir do pátio. Sentir-me rodeado de todos os arcos. Tocar a sombra das colunas projectada sobre as lajes de pedra com o hábito vestido. Um momento de liberdade.
Têm sorte, os nossos senadores. Tirando proveito das obras de restauro feitas pelo agora inimigo Madeira de Pinheiro, podem, quando se sentem enfadados pelos aborrecidos assuntos da autarquia, respirar o ar puro que se sente nos claustros do município.
Tirando proveito das prerrogativas da minha recente nomeação como um dos 367 secretários, prometida e conseguida em plena campanha eleitoral, tenho acesso ao espaço dos claustros. Fazendo uso deste meu privilégio, posso vislumbrar os senadores aos berros aos telemóveis, atendendo chamadas sem conta. Ouço o papel dos muitos cigarros que fumam a encarquilhar, portas a bater. Vejo-os esbracejar violentamente com o ar, como que lutando com dezenas de moinhos de vento. E muitas outras coisas que não posso revelar, estas passadas mais tarde e no interior das salas de reunião.
Há dois dias, ou seja, logo após as eleições, vi algo que me preocupou. Uma ambulância estacionada por detrás dos claustros, um homem pequeno de bigode farfalhudo a arfar, de tantas ordens que dava à equipa formada por um bombeiro e a sua sombra. Subi, preocupado com tanto aparato.
No meio do pátio, jazia, inerte, o imperador da freguesia cuja justiça era por demais conhecida. O ambiente era de clara preocupação. Receava-se pelo seu estado de saúde. Via-se, por debaixo da camisa sem gravata que usava, o coração a palpitar. As gotas de suor agrupavam-se em pequenos grupos e escorriam em direcção à laringe. O bombeiro apressava-se a colocar a maca ao seu lado, pedindo ajuda para o transladar .
A contrastar com tamanha agitação, um senador mais afastado. Não era um sorriso, mas antes um verdadeiro riso de hiena que mantinha por debaixo dos pêlos que sobressaíam na sua face. Não percebi se por gozo ou preocupação.
Entretanto, um médico da CM das Termas, a que também chamam não-sei-das-quantas-tur, abeirou-se do infeliz senador. Rápido que nem um raio, claro que nem um blogue violado por hackers, o prognóstico veio antes. Como o do João Pinto, antes do jogo.
Apesar de estar num claustro, vaticinou com eloquência: «o senador padece de claustrofobia, ou seja, de um estado psicopatológico caracterizado pelo medo de passar por ou estar em lugares fechados». Estranho prognóstico, gracejou o senador-mor, adiantando que isso devia ter sido do melão comido no Parque do Pisão. «Esse gajo tem a mania da serra e das cascas de melão, pensa que é do povo, depois admira-se, ainda se comesse um porco no espeto».
O médico apressou-se a explicar que não era um medo de estar num lugar fechado sem mais. Era antes o medo de estar num beco sem saída, uma espécie de claustrofobia política. Resumindo, o senador doente apenas poderia recuperar quando e se o senador mor lhe desse o lugar.
Nunca vi nenhum, mas é assim que imagino o diabo a fugir de uma cruz. Tomado de uma força sobre-humana, o senador-mor, ao ouvir falar da sua substituição deu um salto para trás, actividade em que é perito quando as coisas se complicam, trepou por uma coluna acima e dirigiu-se ao sino do convento. Com as duas mãos, agarrou-se ao badalo e abanou-o sem parar, clamando por ajuda, ao mesmo que tempo que gritava: «querem-me tornar o Gralheiro do século XXI».
Ouvindo tal devaneio, o senador desfalecido recuperou os sentidos e, pensando que o mor estava tomado de um estado de loucura irreversível, aproveitou a oportunidade, mandou-o internar e tomou o seu lugar como número um.
Não sei o que vai acontecer, mas há já quem fale que a sede do concelho vai mudar para a freguesia da justiça.
